Notícias e Opinião

Primeiros resultados dos estudos com a fosfoetanolamina: não é eficaz “in vitro”

Os primeiros relatórios relacionados aos estudos com a fosfoetanolamina foram divulgados e os resultados não apoiam a tese de que ela seja capaz de curar o câncer.

Em um estudo, a Fosfoetanolamina Sintética (FS), a Fosfoetanolamina Sintética Nanoencapsulada (FSNE) e a Doxorrubicina (fármaco amplamente utilizado em quimioterapia do câncer) foram aplicadas em algumas linhagens de células tumorais humanas (colorretal, próstata e cérebro), fibroblastos – um tipo de tecido conjuntivo – de células de ratos e também em células humanas sadias (mononucleadas de sangue periférico).

Fizeram a avaliação da atividade antiproliferativa in vitro, ou seja, avaliaram se os compostos testados possuem capacidade de evitar que as células tumorais se reproduzam. In vitro significa que os resultados da avaliação servem para células cultivadas em laboratório, já que os compostos não foram aplicados diretamente em organismos, como animais ou humanos. Fizeram também um ensaio que permite verificar se os compostos testados são capazes de causar danos à membrana celular, com formação de poros ou ruptura total da mesma.

Os resultados desse estudo mostram que tanto a FS quanto a FSNE apresentaram atividade citotóxica (toxicidade para as células) apenas em concentrações muito elevadas, em linhagens de células tumorais e não tumorais. Além disso, o efeito antiproliferativo da FS foi alcançado em concentrações menores para as células de ratos do que para os tumores humanos, enquanto a FSNE teve efeito antiproliferativo reduzido tanto nos fibroblastos dos ratos quanto nas células sadias.

Foi concluído que os compostos FS e FSNE não são considerados citotóxicos, pois é necessária uma concentração muito alta para apresentar tais efeitos, a Doxorrubicina apresentou citotoxidade em concentrações muito menores. Entretanto, quando encapsulada, a fosfoetanolamina apresentou seletividade para células tumorais, embora a toxicidade das células seja alcançada apenas em concentrações elevadas. Além disso, os autores, de forma otimista, ressaltam que os estudos in vitro apenas fazem parte de um processo de triagem inicial para substâncias promissoras, podendo ainda apresentar potencial antitumoral in vivo, possivelmente por depender de rotas metabólicas para desencadear sua ação e sugerem que sejam realizados testes in vivo.

Em um segundo estudo, avaliou a atividade citotóxica e antiproliferativa dos principais compostos presentes nas análises químicas da amostra da fosfoetanolamina que tem sido utilizada, esses compostos são: fosfoetanolamina, monoetanolamina e fosfobisetanolamina. Isto porque em análises químicas quantificou-se concentrações variadas desses compostos em amostras da fosfoetanolamina utilizada pelo grupo do professor Chierice, sendo que a fosfoetanolamina propriamente dita corresponde a no máximo 32% do total do composto. Assim, cada um desses compostos encontrados foram aplicados em células humanas de carcinoma de pâncreas e melanoma (câncer de pele) in vitro, utilizando três tipos diferentes de metodologia de análises. Nesse estudo, as drogas utilizadas, como controle positivo, para comparação foram a Gencitabina e a Cisplatina.

Os resultados desse estudo complementam os resultados do primeiro estudo. A fosfoetanolamina e a fosfobisetanolamina não apresentaram toxicidade às células, enquanto que com a monoetanolamina a citotoxidade das células foi alcançada somente em concentrações muito elevadas, nas três metodologias. O estudo aponta que, em uma das metodologias, a monoetanolamina foi aproximadamente 2.600 vezes menos potente que a Cisplatina em relação à toxicidade de células de melanoma e 6.500 vezes menos potente em outra metodologia. Concluindo que somente a monoetanolamina apresenta atividades citotóxica e antiproliferativa, entretanto somente em concentrações muito maiores do que as utilizadas com os fármacos atuais para tratamento de câncer.

Os resultados são desanimadores e mostram a importância da realização de todos os testes científicos antes de aprovar a liberação de um medicamento e exemplifica bem o porquê da negação de liberação pela Avisa. Como já explícito em post anterior, seria falta de responsabilidade liberar um medicamento, cujos reais efeitos são desconhecidos. Resta continuar no otimismo apresentado no primeiro estudo, de que o composto ou o conjunto dos compostos presentes na pílula possam ter comprovação de efeito positivo in vivo, ou seja, quando aplicado diretamente no organismo. Vamos aguardar os próximos resultados.

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2 respostas »

  1. SOBRE A MATÉRIA DO UOL
    (http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/03/19/relatorios-de-ministerio-dizem-que-pilula-da-usp-nao-e-eficaz-contra-cancer.htm):

    “Usando de manipulação grosseira dos relatórios divulgados pelo MCTI, o Grupo Folha (portal UOL/Folha de S. Paulo) retomou sua campanha de desqualificação da fosfoetanolamina sintética ainda na fase pré-clínica.

    No artigo, não assinado (o que impede saber as credenciais do autor), o Grupo Folha alega que a eficácia da fosfoetanolamina é “menor do que a dos quimioterápicos comuns” nos estudos “in vitro” (testes com células em placas de petri). Como estamos cansados de saber, a fosfoetanolamina não possui ação citotóxica. Ela é um marcador tumoral. Seu objetivo não é matar diretamente as células cancerígenas, e sim estimular a ação do sistema imunológico do paciente – e esse, sim, irá combater a doença. Logo, qualquer substância de maior toxicidade do que a fosfoetanolamina terá melhores resultados em testes em placas de petri – até mesmo água sanitária, mas seu uso como medicamento, por motivos óbvios, jamais seria cogitado.

    É necessário também que se tenha em mente que os estudos “in vitro” foram feitos com cada uma das substâncias isoladas encontradas no composto. E como notou a própria Folha de S. Paulo, “uma molécula não citotóxica ou citotóxica em altas concentrações pode apresentar, conforme evidenciam os trabalhos publicados com a fosfoetanolamina, potencial antitumoral in vitro, possivelmente por depender de rotas metabólicas para desencadear sua ação.”. Como se sabe, a fosfoetanolamina sintética é metabolizada no fígado e então distribuída pela corrente sanguínea do paciente até chegar aos tumores e desencadear a ação nas mitocôndrias, sinalizando a existência de células doentes para que o SISTEMA IMUNOLÓGICO passe a agir. Esse processo é impossível de ser reproduzido em estudos em placas de petri.

    O artigo completamente irresponsável e manipulador do Grupo Folha tem por objetivo desestimular a aprovação do uso compassivo da substância no Senado. Fiquemos alertas.”

    (https://www.facebook.com/abrafosfo/posts/476652502541037)

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    • Cabe lembrar que em um dos relatórios a conclusão ressalta a importância de se estudar os compostos in vivo justamente pelo que você explicou (a ação no sistema imunológico), então não acho que tenha sido um relatório manipulador, eles apenas fizeram testes iniciais com a cápsula do grupo da USP de São Carlos. Outros estudos virão, vamos aguardar e continuar a pressão popular para garantir que todas as etapas sejam realizadas.

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