Microbiologia

Fitoplâncton e as consequências ambientais do rompimento da barragem de Mariana (MG)

Após quase seis meses do desastre ambiental em Mariana (MG) as notícias não são nada animadoras. Uma reportagem da Revista Pesquisa Fapesp (Impactos visíveis no mar) relata que poluentes liberados com o rompimento da barragem chegam a 200 km ao norte e ao sul da foz do rio Doce, atingem unidades de conservação, alteram equilíbrio ecológico e se acumulam no assoalho marinho.

Os resíduos formam uma mancha móvel que atingiu pelo menos três unidades de conservação de organismos marinhos, o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz, a Área de Proteção Ambiental (APA) Costa das Algas e uma das principais áreas de desova da tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), uma faixa de 37 km de praias conhecida como Reserva Biológica Comboios. Desde janeiro os movimentos da mancha de resíduos podem ser acompanhados por meio de mapas gerados pelo Ibama a partir de imagens de satélites.

A mancha de resíduos, conhecida como pluma, não se trata apenas dos resquícios da extração de minério de ferro, também foram encontradas colônias de algas e outros organismos marinhos microscópicos (o fitoplâncton), em concentrações muito maiores que as observadas nos anos anteriores.

O fitoplâncton é um dos tipos de plâncton, trata-se do grupo de microrganismos aquáticos capazes de realizar fotossíntese. O plâncton (de origem grega – plagktós – que significa errante) é constituído por organismos uni ou pluricelulares, microscópicos em sua grande maioria, que flutuam com pouca capacidade de locomoção nos ambientes aquáticos. Apesar de pequenos, esses seres são importantíssimos para a cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos.

(a legenda pode ser ativada nas configurações do vídeo, na barra inferior)

O fitoplâncton é encontrado até no máximo 200 m de profundidade, já que necessita de luz para realizar a fotossíntese (fixação de CO2 com liberação de O2). Na verdade, é o principal contribuinte para o ar que respiramos, sendo responsável por 98% do oxigênio atmosférico, isso porque liberam mais oxigênio do que são capazes de consumir, ao contrário do que ocorre nas florestas, que produzem muito, mas consomem igualmente, por meio da respiração dos seres do próprio local. Além disso, o fitoplâncton corresponde à base da cadeia alimentar dos ecossistemas aquáticos, uma vez que são o alimento dos organismos de origem animal que compõem o zooplâncton, que por sua vez servem de alimento para peixes, e assim por diante.

Algas unicelulares (microalgas), são os principais organismos que compõem o fitoplâncton, entre as mais abundantes temos as diatomáceas e os dinoflagelados. Alguns gêneros deste último grupo são os responsáveis pelo fenômeno conhecido como “maré vermelha”, que ocorre quando há um excesso de reprodução dessas (e outras) algas, causada pela combinação de temperatura, luminosidade, salinidade ideais com excesso de nutrientes na água (geralmente poluição).

Da mesma forma, a poluição causada pelo rompimento da barragem da Samarco, gerou o aumento na concentração de fitoplâncton, onde cresceram e se multiplicaram rapidamente, em decorrência do excesso de ferro dos rejeitos da mineradora de Mariana que se espalham pelo mar a partir da foz do Rio Doce.

Análises indicaram que as colônias de algas são constituídas por organismos que se formam e morrem em poucos dias, mais rapidamente que o habitual. A decomposição acelerada dos organismos consome oxigênio da água do mar, com consequências imprevisíveis sobre as comunidades de organismos marinhos. Além disso, a diversidade do fitoplâncton havia se reduzido quase à metade, provavelmente por ter ocorrido uma seleção de variedade mais adaptadas ao excesso de ferro trazido com a descarga de resíduos no mar.

Foi observado o aumento de barcos de pesca próximos às manchas do fitoplâncton na foz do rio Doce. Atraídos pela abundância de alimento, o grande número de peixes chamou a atenção dos pescadores. Além disso, o excesso de matéria orgânica causado pelo alto crescimento desses microrganismos causa o fenômeno da eutrofização, levando a uma diminuição do oxigênio dissolvido, provocando a morte e consequente decomposição de muitos organismos, diminuindo a qualidade da água e eventualmente a alteração profunda do ecossistema.

Segundo Claudio Dupas (coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental da Superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em São Paulo), ainda não é possível avaliar o impacto sobre o ambiente, a vida dos organismos marinhos e dos moradores da região.

O relatório produzido pela Marinha do Brasil revela uma concentração de arsênio, manganês, selênio e chumbo acima do limite estabelecido pela resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O diagnóstico identifica alta concentração de metais em duas regiões: na de águas salinas do tipo I, que corresponde a área marítima próxima à foz, e na água doce, coletada no rio Doce. Na água salina, há alta concentração de arsênio, manganês e selênio. Já no rio Doce, além do manganês e selênio, também foi encontrado chumbo. A presença desses compostos pode causar sérias consequências devido ao acúmulo dos metais no organismo. O chumbo, em qualquer proporção, traz prejuízos ao ser humano, assim como o arsênio, que é considerado tóxico e atinge o sistema nervoso e consequentemente vários sistemas. Já o manganês dificulta a captação de oxigênio e o selênio causa problemas de pele. Os resíduos industriais podem ir muito além dos lugares onde foram produzidos, misturar-se com os sedimentos do fundo do mar, aflorando se revolvidos por redes de pesca, ou ser absorvidos por organismos marinhos.

Outras consequências citadas, ligadas ao rompimento da barragem, são o aumento da temperatura da água por causa da alta concentração de partículas que absorvem o calor e a intensa turbidez da água, que dificulta a penetração da luz e a sobrevivência dos organismos.

 

 

Para saber mais:

http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/

http://g1.globo.com/espirito-santo/desastre-ambiental-no-rio-doce/noticia/2016/04/relatorio-da-marinha-indica-presenca-de-metais-na-foz-do-rio-doce.html

http://www.ecologia.ib.usp.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=147&Itemid=443

http://www.ecycle.com.br/component/content/article/35/1490-excesso-de-materia-organica-gera-a-eutrofizacao-que-pode-prejudicar-biodiversidade-e-uso-de-agua-por-humanos.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s