Biologia Celular e Molecular

Homossexualidade: genética ou comportamento?

No domingo passado (08/05/2015), Patrícia Abravanel causou polêmica ao dizer, no Programa Silvio Santos, que é contra falar que a homossexualidade é normal e que crianças deveriam ser orientadas quanto ao comportamento masculino ou feminino. Afinal, homossexualidade é uma questão de genética ou é comportamental?

A homossexualidade é estudada e discutida há tempos, tanto no âmbito psicológico quanto biológico. No que diz respeito à biologia, hoje sabemos que as causas não são somente hormonais e que tanto fatores biológicos quanto ambientais podem influenciar. Mais do que isso, tanto as experiências do indivíduo durante a vida quanto os fatores ambientais e comportamentais da mãe, no período de gestação, podem interferir na genética do indivíduo. Isso ocorre por causa dos fatores epigenéticos.

Cada célula do organismo possui todo o genoma, contudo nem todos os genes são expressos em todas as células. Cada célula expressa um número restrito de genes, de acordo com sua função, por exemplo um neurônio não expressa hemoglobina nem mioglobina, porém expressa dopamina. Já uma célula muscular não expressa hemoglobina nem dopamina, mas expressa mioglobina. Sendo assim, no neurônio o gene da hemoglobina foi silenciado. Essa diferença da expressão de genes entre os diversos tipos de células é a função dos fatores epigenéticos, que são modificações do genoma que podem ser herdadas pelas próximas gerações, mas que não alteram a sequência do DNA.

O funcionamento de fatores epigenéticos podem ser influenciados por fatores ambientais e hábitos cotidianos, tais como alimentação e exercícios físicos, o que mostra o quanto os nossos hábitos atuais podem influenciar não apenas a nossa saúde, mas também a de nossos descendentes, uma vez que as modificações podem ser herdadas.

A epigenética tem seu efeito biológico a partir de mudanças químicas que podem ocorrer na molécula de DNA e em proteínas chamadas de histonas

As marcas epigenéticas são marcas pontuais que marcam ou desmarcam começo ou fim de genes em sentenças providas do cromossomo. Dependendo da pontualidade da marca, pode expressar (ativar) ou não expressar (silenciar) o gene. Têm seu efeito biológico a partir de mudanças químicas que podem ocorrer na molécula de DNA e em proteínas chamadas histonas.

As histonas são responsáveis pelo primeiro nível de empacotamento do DNA na cromatina. A unidade básica de empacotamento do DNA é chamada de nucleossomo e corresponde a um núcleo protéico formado por quatro tipos de histonas, sobre o qual o DNA se enrola e sofre, então, outros estágios de enrolamento, até formar o cromossomo totalmente espiralizado, com o DNA totalmente compactado.

Entre as principais alterações epigenéticas estão:

  • A metilação do DNA (adição de um grupo metila – CH3 – ao nucleotídeo citosina);
  • Modificações pós-traducionais de histonas (metilações, ubiquitinação, fosforilação, sumolação, acetilação de resídíos na calda N-terminal);
  • Remodelação da cromatina (deixando mais denso ou empacotado, espalhado ou desempacotado nos locais de início da transcrição);
  • Histonas variantes com propriedades específicas, utilizadas para diferentes funções;
  • RNAs não codificadores que atuam silenciando genes pós-transcrição, controlando elementos transponíveis ou mesmo inativando cromossomos.

Uma das pesquisas que mostram a influência dos fatores epigenéticos na homossexualidade é um estudo de 2011, que mostrou que em gêmeos univitelinos – que tem o mesmo DNA, como clones – as chances de um irmão ser gay se o outro é só ficam em 20%. Como compartilham do mesmo background genético (exatamente a mesma sequência de bases em ambos os genomas) essa divergência só pode ser fruto das experiências individuais durante a vida e das mudanças epigenéticas.

Ainda que estudos sejam necessários para melhor compreender as causas da homossexualidade, já sabemos que ela é influenciada tanto pela genética quanto pelo comportamento, ou melhor ainda, pela interação desses dois fatores. Contudo, é importante observar que, ao contrário do comportamento adotado por grande parcela da sociedade, a sexualidade humana não é simples e não se trata apenas de escolha, de opção individual. Mesmo sendo fruto de uma interação entre a genética e a vivência do indivíduo, a homossexualidade ultrapassa as escolhas do indivíduo, se impõe. E a melhor forma de lidar com isso não é negar a naturalidade de sua existência ou tratar os homossexuais com brutalidade, o melhor caminho é, e sempre será, o respeito ao próximo.

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