Notícias e Opinião

Por que a supremacia branca não faz o menor sentido do ponto de vista biológico?

O protesto ocorrido na última sexta-feira (11/08/2017) em Charlottesville, no Estado americano de Virgínia, influenciou o mundo a retomar a discussão sobre as justificativas de pessoas racistas a acreditarem na hierarquização das raças humanas em superiores e inferiores.

Mas por que é importante discutirmos a supremacia branca do ponto de vista biológico? Bem, porque a  origem de ideias de superioridade de uma raça sobre outras vem de interpretações equivocadas dos estudos de Darwin. Hitler, em suas teorias sobre a superioridade da raça ariana foi fortemente influenciado por seguidores de Darwin.

Um deles foi Herbert Spencer, que procurou aplicar as leis da evolução a todos os níveis da atividade humana e teve suas ideias enormemente distorcidas, o que lhe rendeu o título de “Pai do Darwinismo Social“. Esse conceito surgiu quando pensadores sociais começaram a transferir os conceitos de evolução e adaptação para a compreensão das civilizações e demais práticas sociais, desenvolvendo a ideia de que algumas sociedades e civilizações eram dotadas de valores que as colocavam em condição superior às demais e sugerindo que a cultura e a tecnologia dos europeus eram provas vivas de que seus integrantes ocupavam o topo da civilização e da evolução humana.

Outro seguidor fervoroso de Darwin que contribuiu para as equivocadas ideias de supremacia raciais foi Ernst Haeckel. Este propagou a evolução com fervor evangelístico, não só para a intelectualidade das universidades, mas para o homem comum através de livros populares e para as classes trabalhadoras, através de palestras em salões alugados. Haeckel contribuiu muito para a zoologia e biologia em geral, contudo também cometeu falhas como cientista. Produziu desenhos de embriões que agregavam várias semelhanças entre espécies relacionadas, que eram encontrados em muitos livros de biologia, contudo perderam força por causa da manipulação das imagens para forçar a visão de semelhança embrionária de diversas espécies. Além disso, Haeckel usou essa evidência da semelhança embrionária para concluir que os brancos eram evolutivamente superiores a outras raças que, correspondiam a estágios anteriores aos brancos europeus.

Não podemos deixar de citar uma terceira personalidade, que não era seguidor de Darwin, mas que utilizava de características biológicas para sustentar a teoria de que europeus eram superiores: Arthur de Gobineau. Esse diplomata, escritor e filósofo francês é autor da obra “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” e acreditava que a miscigenação era inevitável e levaria a raça humana a graus sempre maiores de degenerescência física e intelectual. Gobineau comparou o cérebro do homem nas diferentes etnias e chegou a assumir que havia uma relação entre seu volume e o grau de civilização.

Mas porque essas interpretações dos estudos de Darwin são equivocadas?

Bom, para início de conversa, é necessário esclarecer que do ponto de vista biológico a divisão dos humanos em raças simplesmente não existe. A variabilidade genética humana não é distribuída de forma bem delimitada como implica uma divisão de raças. Na verdade, tendo a genética como referência, vemos que dois indivíduos alocados a uma mesma raça são praticamente tão diferentes uns dos outros quanto indivíduos de raças diferentes, ou seja, a maior parte da variação genética em humanos não está entre grupos raciais, mas sim dentro deles. E a diferença é simplismente minúscula!

Na época de Darwin, ainda não havia Biologia Molecular e o estudo dos aspectos físicos da Genética iniciou-se apenas em 1953 com a descrição da estrutura do DNA por Watson e Crick. Desde então, a genética muito contribuiu para esclarecer equívocos sobre a hereditariedade de caracteres, evolução e classificação das espécies em grupos. Mas Darwin nunca aliou a evolução à dualidade de “superioridade e inferioridade”, ele sempre deixou claro que as vantagens de uma determinada característica eram relativas ao ambiente que o indivíduo ocupa. E a cor da pele é um excelente exemplo disso, a melanina protege a pele dos raios U.V. do sol, assim, em um ambiente de alta incidência solar ter a pele negra é algo vantajoso, pois naturalmente dá maior proteção contra câncer de pele. A mesma coisa para os cabelos, o cabelo crespo permite maior proteção contra a forte incidência solar e maior ventilação no couro cabeludo. No entanto, todas essas características são desnecessárias em um ambiente de baixa incidência solar.

Da mesma forma que a cor da pele, há o surgimento de outras diferenças físicas das diversas etnias, mas no que diz respeito à intelectualidade e Q.I. essas diferenças não se encaixam com as características biológicas dos diferentes povos, como Hitler e seus influenciadores acreditavam. Claramente a diferença está muito mais relacionada a questões econômicas, sociais e culturais de cada povo. Mas voltemos para os aspectos biológicos…

Partindo do pressuposto que os fósseis mais antigos de seres humanos são do continente Áfricano, por que os europeus “perderam” a alta produção de melanina? Os caminhos que a evolução segue trabalha com o ambiente em que uma determinada população ocupa. E como a energia gasta pelo corpo de todos os indivíduos de uma mesma espécie é basicamente a mesma, o surgimento de uma nova característica em um indivíduo muitas vezes é concomitante ao desaparecimento de outra característica desnecessária, nosso organismo dispensa energia naquilo que é necessário à nossa sobrevivência. Como os povos de ambientes de baixa incidência solar não precisavam de alta produção de melanina, essa característica não seguiu adiante.

Há um exemplo muito legal de perda de características em função do desenvolvimento de outras pela pressão seletiva. No Sistema Montanhoso do Pacífico, em Oregon, há uma espécie de salamandra aquática (Taricha granulosa) com glândulas cutâneas que produzem uma toxina que, se ingerida, é capaz de interromper as funções vitais de um ser humano adulto em questão de horas. Por outro lado, seu predador, a cobra-gárter (Tamnophis sirtalis), que é inocente aos humanos, apresenta tolerância à mesma toxina. Na verdade, existe uma luta evolutiva entre as duas espécies, quanto mais a salamandra evolui para o aumento da produção de quantidade de toxina, mais a cobra desenvolve sua tolerância. Mas a cobra tem um preço a pagar, pesquisadores perceberam que as cobras mais tolerantes ao veneno também eram as mais lentas em percorrer uma determinada distância. Ao mesmo tempo que se desenvolvem como predadores, tornam-se presas mais fáceis. Temos aqui que ressaltar que a perda de melanina pelos europeus não possui nenhuma correlação com o desenvolvimento cerebral, por mais que os defensores da supremacia branca tenham buscado esse tipo de prova científica isso nunca foi comprovado, nem qualquer outro tipo de diferença biológica que justificasse a supremacia de uma etnia sobre outra.

Além de tudo, não há como não falar das vantagens da variabilidade genética. Ao contrário do que pressupôs Arthur de Gobineau, a ausência da variabilidade genética a nível de espécie é que aumenta a probabilidade de produção de seres defeituosos. Manter a pureza de uma raça a qualquer custo é desvantajoso. Para o sistema no qual opera a genética, a variabilidade alcançada pelo cruzamento é uma forma eficiente de dispersar características favoráveis aos indivíduos de uma determinada espécie, enquanto a seleção das características mais vantajosas fica por encargo do processo evolutivo, não é à toa que temos doenças caninas que são características de determinada raça. Enquanto os vira-latas seguem saudáveis comendo tudo o que vem pela frente, os de raça pura precisam de cuidados específicos.

Concluindo, quanto mais a ciência avança suas pesquisas relativas à Biologia Humana em geral ou à diferença entre as “raças humanas”, a resposta é sempre a mesma: somos iguais! A diferença entre etnias é totalmente irrelevante do ponto de vista evolutivo, são apenas características ligadas à área geográfica na qual os povos se desenvolveram. E no mundo globalizado em que vivemos, essas diferenças tornam-se mais irrelevantes a cada dia que passa.

Agora que você já se informou sobre os pontos biológicos que contrapõem o nazismo, sugiro que se informe também sobre os outros pontos, que vão muito além da biologia. Para isso, separei alguns links que me pareceram informativos. O importante é se posicionar e não deixar um movimento tão cheio de preconceitos e intolerância ganhar força.

Racismo: uma visão geral

Anti-semitismo

Segunda guerra mundial: Nazismo

O Nazismo era um movimento de direita ou de esquerda?

A extrema direita está em ascensão nos EUA?

PS: Já falamos aqui sobre as questões genéticas ligadas à homossexualidade, por isso não acho necessário abordar novamente esse tema.

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