Microbiologia

Surtos de cólera estão mais relacionados com bactérias disseminadas pelo globo do que com cepas locais.

Acreditava-se que as epidemias de cólera fossem domésticas, ou seja, impulsionadas por cepas locais de Vibrio cholerae vivendo em ecossistemas aquáticos. Mas o DNA das cepas de V. cholerae de grandes surtos recentes na África e na América Latina estavam mais relacionadas às cepas do sul da Ásia do que às locais, de acordo com dois artigos publicados na Science no início do mês (os links dos estudos estão no fim o texto).

Segundo os pesquisadores, essa evidência de que as cepas responsáveis pelas epidemias vieram do exterior podem orientar os esforços em saúde pública, uma vez que entender como a doença se espalha ajuda no seu controle.

 As pessoas são expostas a V. cholerae consumindo água ou alimentos contaminados pelas bactérias e as faltas de saneamento e tratamento da água potável podem alimentar uma epidemia.

Uma infecção por cólera pode produzir sintomas leves ou ser assintomática, mas cerca de uma em cada 10 pessoas rapidamente desenvolve diarreia severa e desidratação que, sem tratamento, pode matar em poucas horas. Embora não relatados, os casos de cólera em todo o mundo são estimados atingir entre 1,4 milhão e 4 milhões e pessoas a cada ano, e cerca de 21.000 a 143.000 pessoas morrem por causa da doença, de acordo com o Global Health Observatory (Observatório Mundial de Saúde) da Organização Mundial da Saúde.

Houve sete pandemias de cólera ou surtos globais, desde o século XIX, quando a bactéria se espalhou de seu local original no subcontinente indiano. O sétimo ainda está em andamento, ele começou na Indonésia em 1961, atingiu a África em 1970 e atingiu a América Latina em 1991. É atribuído a cepas que se originaram perto da Baía de Bengala, onde a cólera é uma ocorrência sazonal.

Mas não estava claro se os grandes surtos que acontecem ao redor do mundo estavam relacionados entre si, ou se cada um deles se originou de cepas locais. Os métodos anteriores utilizados para rastrear V. cholerae não conseguiam distinguir as cepas com detalhes suficientes, tornando impossível compreender as rotas de propagação da cólera durante os últimos 50 anos.

Uma equipe de pesquisa internacional analisou a informação genética de cerca de 1.700 cepas de V. cholerae, incluindo aquelas coletadas durante e entre os surtos, em cerca de 40 anos em 45 países da África e 14 países da América Latina.

Tanto na África como na América Latina, as cepas responsáveis ​​pelas grandes epidemias estavam mais intimamente relacionadas com as cepas do sul da Ásia, em vez de linhagens locais. Os pesquisadores descobriram que essas cepas “epidêmicas” foram introduzidas 11 vezes na África desde 1970 e causaram grandes surtos que duraram até 28 anos.

Na América Latina, houve três introduções principais das cepas “epidêmicas” do sul da Ásia. Uma que veio pela África e atingiu o Peru em 1991. Outra invadiu o México ao mesmo tempo, possivelmente chegando com contrabandistas de coca usando uma pista de pouso perto da Cidade do México. E a terceira introdução, do pessoal nepalês das Nações Unidas, que devastou o Haiti em 2010.

Os estudos permitiram maior precisão no conhecimento da cólera. Apesar e encontrar-se o V. cholerae no meio ambiente, agora sabe-se que os padrões de disseminação estão relacionados à transmissão entre pessoas, o que permite que as bactérias se espalhem rapidamente e internacionalmente. Afirmando o papel principal que as pessoas desempenham na propagação da cólera e reafirmando a importância da vacinação como uma estratégia para limitar a doença.

 

Estudos publicados na Science:
F-X. Weill et al. Genomic history of the seventh pandemic of cholera in Africa. Science. Vol. 358, November 10, 2017, p. 785. doi: 10.1126/science.aao2136.
Domman et al. Integrated view of Vibrio cholera in the Americas. Science. Vol. 358, November 10, 2017, p. 789. doi: 10.1126/science.aad5901.
Fonte da reportagem: Cholera pandemics are fueled by globe-trotting bacterial strains
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